Pacarina del Sur
Pacarina del Sur
Pacarina del Sur

O retorno dos integralistas no imediato pós-guerra aos olhos da polícia política de São Paulo (1945-1946)

El retorno de los integristas en la inmediata posguerra a los ojos de la policía política de San Pablo (1945-1946)

The return of the integralists in the immediate post-war in the eyes of the political police of São Paulo (1945-1946)

Renato Alencar Dotta

RECIBIDO: 13-09-2016 APROBADO: 09-11-2016

Resumo

Resumo: Este artigo pretende mostrar como a polícia política do Estado de São Paulo viu os primeiros esboços de retorno dos integralistas na vida política brasileira, que se deram durante o ano de 1945. Depois de uma ilusória aproximação com Vargas em 1937, na qual eles apoiaram o golpe do Estado Novo com a perspectiva de participarem ativamente de um governo antiliberal e corporativista, começaram a ser reprimidos, tendo-se tornado tão indesejáveis na vida política nacional quanto o inimigo comum de ambos, os comunistas. Perseguidos e desmobilizados durante os oito anos da ditadura Vargas, arriscam retornar à política num ambiente completamente desfavorável com o fim da II Guerra. A polícia política paulista, em sua obsessão em registrar as movimentações de todas as forças políticas e sociais , analisa meticulosamente o retorno dos integralistas no após-guerra.

Palavras-chave: integralismo, polícia política, redemocratização no Brasil, pós-II Guerra, Estado Novo

 

Até recentemente, a bibliografia se mostrava extremamente escassa no que diz respeito à atuação dos integralistas no pós-1945, a qual foi centralizada no Partido de Representação Popular, agremiação geralmente ignorada ou subestimada pela historiografia. O PRP (a não ser confundido com o antigo Partido Republicano Paulista, extinto em 1937)[1] foi a tentativa de Salgado e seus seguidores de retornar à arena política depois da derrocada do nazifascismo na Europa. A relação dos camisas-verdes locais com os congêneres camisas-negras e pardas (isto é, fascistas italianos e nazistas alemães, respectivamente) se tornou praticamente indelével, em parte por culpa dos próprios integralistas (por exemplo, a imprensa integralista costumava elogiar efusivamente os regimes e movimentos de extrema direita europeus), em parte por uma propaganda contrária baseada, às vezes, em fatos reais e, outras tantas, simplesmente distorcida (por exemplo, a ideia de que os integralistas recebiam ordens de Berlim ou Roma).

Apesar desse retorno, o protagonismo que o integralismo[2] possuiu na década de 1930 não ressurgiu em fins dos anos 40 em diante, e isso por vários motivos. Primeiro, o desprestígio praticamente total do fascismo, com a revelação de seus crimes de guerra, bem como ao colapso total a que tais regimes levaram a grande parte da Europa. Depois, a própria política e a sociedade brasileira estavam mudando. A começar pela nacionalização dos partidos, isto é, não havia mais a necessidade de partidos estaduais, aos quais a AIB se contrapunha; os meios de comunicação e transportes, bem como os interesses comuns dos estados, suas elites e, cada vez mais, seus setores médios e classe operária, aproximavam as unidades da federação. Além disso, várias das propostas de modernização conservadora proposta pelos seguidores de Salgado foram concretizadas pelo Estado Novo e seus herdeiros políticos[3].

Restavam, pois, um clero conservador e resistente aos novos ventos de mudança do que virá a ser o Concílio Vaticano II, e um razoável eleitorado católico com ele identificado; o medo do comunismo de parte da classe média (inclusive pequenos proprietários agrícolas), renovado pela maré montante da Guerra Fria (renovação da “guerra de religiões”, como glosou Hobsbawm, 2010); e, por fim, os velhos integralistas que ainda se mantinham na antiga “fé”, eram a lenha na fogueira que garantiu certa continuidade e alguma estabilidade para o integralismo perrepista.

O novo PRP estava, contudo, sem algumas das principais lideranças da velha AIB: Gustavo Barroso abandonou a vida político-partidária, dedicando-se quase que totalmente à direção do Museu Histórico Nacional, tendo permanecido no cargo até sua morte em 1959 (Barroso também deixara de escrever livros antissemitas, já que a atmosfera política pós-Holocausto não lhe permitiria); Miguel Reale, ao contrário, apesar de rompido com o integralismo, terá uma vida partidária bem intensa dentro do Partido Social Progressista (PSP), do cacique paulista Ademar de Barros; Olbiano de Mello que tentará, sem sucesso, criar uma corrente política chamada “societarismo” (MELLO, 1957: 183-198); e Santiago Dantas, que se tornará deputado pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), chegando a chanceler do governo João Goulart[4].

Apesar disso, vários líderes intermediários (José Loureiro Jr., Marcel da Silva Telles e Angelo Simões de Arruda, em São Paulo; Raimundo Padilha, no Rio de Janeiro; Nestor Contreiras Rodrigues, no Rio Grande do Sul etc.), líderes locais e militantes de base entram na nova organização, e há também uma renovação geracional de quadros do integralismo, tanto no partido quanto em organizações paralelas que se declaram, de um modo ou de outro, fidelidade à doutrina salgadiana, agora repaginada.

Por conta desse desprestígio dos regimes fascistas, toda a simbologia integralista que pudesse ser relacionada àqueles foi abolida: sigma, camisas verdes, o “anauê”, a maior parte dos hinos e datas comemorativas etc. No lugar do Sigma, o símbolo do partido passa a ser um sino bimbalhante (tocando), como que para “despertar o Brasil”.


Ilustrações 1 e 2: o Sigma sobre o mapa do Brasil, símbolo usado durante o período da Ação Integralista (1932-1937); e o sino usado pelos integralistas durante o período do PRP (a partir de 1945).
Fontes: 1- https://pt.wikipedia.org / 2 - http://historia-do-prp.blogspot.com.br

Criada em 1924 para vigiar e registrar todas as forças políticas e sociais da sociedade paulista, o DOPS-SP (Departamento de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo)[5], sempre esteve em busca do “crime político” – não apenas da esquerda (socialistas, comunistas, anarquistas), como veremos aqui. A polícia política paulista dedicou parte considerável do seu esforço a vigiar os integralistas em sua nova roupagem, dedicando quatro pastas de documentos ao PRP, além de várias outras pastas dedicadas a militantes ou suspeitos de militância integralista.

Não deixa de ser incômodo que, com a queda do Estado Novo, não tenha havido uma discussão pública de monta a respeito dos órgãos de segurança e repressão, ou ela foi mínima, como a série de reportagens do jornalista David Nasser publicada na revista O Cruzeiro, mais tarde reunidas no livro Falta Alguém em Nuremberg (NASSER: 1947), além de alguns debates e a abertura de comissões no Congresso Nacional que não deram em nada, nos primeiros anos após o fim da ditadura (CARVALHO: 2010). Apesar disso, o tema caiu no esquecimento, e os aparatos de repressão e vigilância prosseguiram em sua sanha persecutória nos 40 anos seguintes.

Ao longo de 1945, com a debâcle iminente do Estado Novo em marcha acelerada, o fim da censura, a anistia política[6] e a reorganização partidária dos vários grupos políticos, começam a circular rumores sobre um suposto retorno do integralismo na arena política nacional. O DOPS-SP estava atento a isso e – tal como, aliás, a imprensa - reflete vários desses boatos em seus documentos internos.

Nesse momento, final da II Guerra Mundial, na qual o Brasil havia declarado guerra aos países do Eixo e enviado soldados para lutar no palco europeu do conflito[7], a opinião pública via nos integralistas locais os representantes brasileiros de Hitler e Mussolini. Isso se deveu não apenas aos elogios feitos pela AIB - através de sua imprensa, livros e discursos - aos regimes do Eixo durante a década de 1930, bem como ter usado toda uma simbologia abertamente relacionada aos movimentos fascistas internacionais, mas, pelo menos tão importante quanto isso, a uma intensa propaganda do regime varguista, a qual acusava os seguidores do movimento como “agentes de Hitler no Brasil”, “quinta-colunistas”, e outros epítetos do gênero.

No início daquele ano, com Plínio Salgado ainda no exílio em Portugal, vários integralistas ainda presos e os demais desarticulados, o integralismo era visto como algo sinistro, subterrâneo, e que, com a derrota dos países do Eixo, eventualmente teriam desaparecido para sempre da vida pública brasileira, pelo menos enquanto representantes daquele movimento. Assim, muito do que se tinha a respeito dos integralistas naquele momento se constituía de meros murmúrios, e era desse material que em geral alimentava-se a imprensa e a polícia política. Desse modo, um relatório de investigação não assinado, datado de 22 de março afirma:

Segundo pude saber e remeto a título de boato, os integralistas estão arrecadando dinheiro dos sócios e dão a isso o nome de “FUNDO VERDE”, ignora-se o objetivo, entretanto, presume-se que tal resolução só poderá ser para eventuais necessidades políticas, no período das eleições futuras.

Consta que há um escritório à rua Marconi, alugado por diversas pessoas e ali trabalha ou frequenta, um senhor advogado, de nome RUBIÃO, onde se reúnem sempre vários chefes integralistas, em dias sempre variados, para despistar.

“Fala-se que há dois meses, o Sr. PLINIO SALGADO, remeteu de Portugal, onde se encontra, várias cartas, orientando os seus adeptos a seguirem o momento político que atravessamos. As referidas cartas são assinadas por pseudônimo, que os comentadores ignoram e dizem ter ouvido tal informação, nas rodas integralistas.[8]

 

O investigador admite desde o princípio o caráter de boato a respeito da origem de sua informação sobre um fundo de auxílio para os integralistas supostamente participarem das eleições que se realizariam naquele ano, ou posteriores. Note-se as palavras e expressões utilizadas pelo investigador: “consta que”, “fala-se que”, “presume-se”, que denotam incertezas e origem desconhecida ou pouco confiável para tais histórias. O texto indica ainda um suposto local de reunião dos integralistas no centro da capital paulista.

Sobre o “Fundo Verde” não encontramos mais referências, mas é muito oportuno compará-lo com outra entidade integralista de nome e tática semelhantes: o “Socorro Verde”, que funcionou no Rio de Janeiro no início dos anos 40, e foi “fundada na intenção de auxiliar integralistas detidos” (MIRANDA, 2009:106-7). A arrecadação de fundos era feita através de tômbolas, rifas e festas e, para além da questão financeira, “ainda criava uma oportunidade de encontro e planejamento de ações coordenadas dos integralistas no Rio de Janeiro”. O Socorro Verde, assim como outras entidades assistencialistas dos integralistas durante o Estado Novo, foi amplamente investigado pelo DESPS, a polícia política do Estado do Rio.[9]

Outro relatório reservado, datado do mesmo dia, e também sem autoria revelada dá indicações de uma suposta organização dos seguidores de Salgado no interior do Estado. Uma das percepções é de que a AIB voltaria como tal e não como um novo partido: “Um outro boato que pude saber, é que em Campinas, há uma sede de integralistas, cujo chefe é um médico lá residente, de nome MURCIO, o qual está reunindo e reorganizando o tal núcleo da Ação Integralista Brasileira, naquela cidade.”[10]

Logo abaixo se nota a importância que o próprio agente está dando aos boatos para fazer seu trabalho de investigação. Ele acha que os boatos, se confirmados, podem dar uma pista, o que justificaria um apoio maior para prosseguir nas investigações (possivelmente verba, equipamentos e/ou pessoal): “A verdade é que tais informes não passam de puros boatos, porém, algo de verdade, poderá ser conseguido e para tal, não faltam recursos técnicos, capazes de apurar com a máxima facilidade, o que seria para mim difícil, em virtude de não possuir elementos tais para isto.”[11] O boato é admitido aqui como claro substituto da falta da possibilidade de uma investigação mais acurada.

Embora os rumores sobre os integralistas não tenham cessado, um elemento novo irá mudar um pouco essa situação no início de maio, tirando a movimentação dos integralistas da penumbra completa. Marco da reorganização do movimento integralista naquele ano, a “Carta Aberta à Nação Brasileira”, documento em que os integralistas, que já viviam de fato algum grau de organização, procuravam refutar as acusações que lhes pesava naquele momento, fruto sobretudo de campanha midiática divulgada durante o Estado Novo, e contra a qual permaneceram todo o período daquele regime sem a possibilidade de contra-argumentarem. Assinavam 103 personalidades, dentre as quais antigas lideranças da AIB, como Gustavo Barroso, Olbiano de Mello, Alberto Cotrim Neto, José Loureiro Jr., Marcel da Silva Telles, Everaldo Leite, Raymundo Barbosa Lima, Raymundo Padilha, dentre outros[12]. A carta foi publicada na grande imprensa e divulgada também em estações de rádio. Diz o documento em sua introdução:

Os abaixo assinados – brasileiros tão dignos e patriotas quanto os que mais o sejam – membros da extinta ‘AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA’, dissolvida em dezembro de 1937 pelo Governo Nacional, cumprem o imperioso dever de vir, perante a Nação, defender seu passado contra a obstinada e injusta campanha, sistematicamente feita no sentido de infamar aquele movimento e, em consequência, todos quantos sincera e honestamente, dele participaram.

Perante os homens de bem do nosso país protestam com dignidade e altivez, de consciência limpa, contra a teimosa repetição de calúnias, que repousam unicamente sobre palavras, sem uma prova, sem um fato concreto, e aboná-las em que se destinam a aponta-los à opinião pública como verdadeiros réus de lesa pátria.

Neste momento de graves angústias e inquietantes apreensões provenientes da grande crise que assoberba o mundo mais de que nunca se torna necessária a união de todos os brasileiros em torno do Brasil, com esquecimento de ódios e prevenções, que por ventura as lutas, os dissídios, as competições do passado tenham gerado e nutrido. Não se justificaria pois, a exclusão de vida nacional, deste ou daquele grupo, por este ou aquele motivo, menos ainda em virtude tão somente de levianas e gratuitas afirmações.

Afim de que elas não passem em julgado sob silêncio, usando do direito de defesa, que têm todos os acusados, os signatários desta carta desafiam de público os acusadores da extinta “Ação Integralista Brasileira” a apresentarem suas provas, apelando para o juízo sereno de todos os brasileiros conscientes.[13]

 

Seguia-se uma série de cinco agrupamentos de acusações, contra as quais o documento interpunha suas argumentações[14]. Segundo o historiador Rogério Lustosa Victor, este documento (dentre inúmeros outros, posteriormente produzidos) se tratava de uma defesa do passado integralista com o objetivo de salvar o seu presente. Afinal, se se continuasse a difundir as acusações de que o integralismo era “nazifascista”, como havia amplamente divulgado o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), os integralistas não teriam chances de subsistir politicamente. Segundo ele:

Para os integralistas, a memória social negativa referente ao integralismo era oriunda de injusta campanha que os difamava e, assim, impunha-se como imperioso dever defender o passado do movimento perante a nação, até porque era preciso nuançar tal passado na memória social, sob o risco de não poderem atuar politicamente naquele tempo. (VICTOR, 2012: 204)

 

Para o DOPS-SP, a posse de tal documento em suas dependências tinha um duplo significado: reunia em um só documento as acusações mais em voga contra o integralismo, como também era um indicativo de suas tentativas de rearticulação no pós-guerra.

Houve uma reação ampla e imediata na grande imprensa, também refletida na documentação policial do DOPS. A opinião da mídia era de apreensão e de manutenção das acusações do passado do movimento. Uma notícia da agência de notícias Asapress[15] relata:

Causou a mais profunda estranheza em todos os círculos desta capital a publicação feita ontem por todos os jornais e anunciado hoje por uma emissora local, um comunicado em que vários ex-integralistas, confessando a sua qualidade, defendem a extinta ação integralista. Essa prova flagrante de que os ‘camisas-verdes’ continuam organizados e que possuem ainda grandes fundos que lhes permitam o pagamento dos balcões dos jornais e das emissoras para divulgação desse comunicado, veio provar as acusações de vários antifascistas de que os partidários de Plinio Salgado continuavam em sua ação politica.[16]

Ilustração N° 2 – Recorte da “Carta Aberta à Nação Brasileira”, publicada na edição do jornal “A Noite”, de 07/05/1945, e anexada ao dossiê 24-Z-5-39. Fundo DEOPS. Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Ilustração N° 2 – Recorte da “Carta Aberta à Nação Brasileira”, publicada na edição do jornal “A Noite”, de 07/05/1945, e anexada ao dossiê 24-Z-5-39. Fundo DEOPS. Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Para muitos foi, pois, uma surpresa essa declaração pública dos integralistas, que estavam desarticulados desde o golpe do Estado Novo em 1937. Mas ao contrário de convencer a sociedade da inocência dos mesmos das acusações que lhes pesavam, a carta aberta serviu, sobretudo, para confirmar que os integralistas agiam nas sombras (pois, segundo a notícia, eles “continuavam organizados”) e “possuíam grandes fundos” (quiçá ainda provenientes das potências do Eixo, pode-se inferir do subtexto), tanto que ela “veio provar as acusações de vários antifascistas”, o que mais uma vez contrariaria a argumentação integralista, de não envolvimento com o fascismo.

Alguns dias depois, a Asapress publica um desmentido ao documento integralista. Dois supostos homônimos de um signatário da “Carta Aberta”, pai e filho, desmentem que tenham sido integralistas, o que sugere que a lista de assinaturas poderia ter elementos de fraude.

O almirante Arthur Tompson [sic] e seu filho e homônimo, esclarecendo não serem e nunca terem sido integralistas e que, portanto, a assinatura de Artur Tompson Filho que consta da ultima proclamação integralista, não lhes pertence e nem tão pouco a nenhum de seus parentes.[17]

 

As críticas da grande imprensa continuam. Ao invés de aceitar os argumentos da Carta Aberta, os jornais se alarmaram com o que entendiam ser o retorno da AIB à vida pública nacional, o que não se encaixaria com a nova realidade do mundo pós-guerra. 

‘O integralismo tentará voltar a atividade política, sendo a atual carta aberta à nação brasileira o primeiro passo de uma intensa propaganda’, declara o jornal ‘O Globo’, o qual acrescenta, que a ação integralista brasileira, que no dia da vitória, fez publicação na imprensa, onde tenta se defender das responsabilidades e crimes que lhe são imputados está se ativando na tarefa de reorganizar seus quadros, e que pleiteia através da nova lei eleitoral e dá seus dispositivos, sobre a formação ou registros de partidos.[18]

 

Ilustração N° 3  – Despacho da agência de notícias “Asapress”, de 07/05/1945. Anexado em 24-Z-5-40 (pasta 1). Microfilme. Fundo DEOPS. Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Ilustração N° 3  – Despacho da agência de notícias “Asapress”, de 07/05/1945. Anexado em 24-Z-5-40 (pasta 1). Microfilme. Fundo DEOPS. Arquivo Público do Estado de São Paulo.

No dia 11 de maio, poucos dias após o lançamento do documento integralista, a imprensa lembrou o sétimo aniversário do levante armado de 1938, batizado pelo Estado Novo e desde então conhecido publicamente como “Intentona Integralista[19]”. A comparação com o nazismo volta a ser explícita, quando o ataque ao Palácio Guanabara é comparado com o golpe perpetrado pelos militantes do Partido Nazista Austríaco, em 1934. A intenção da lembrança era clara: imputar aos integralistas a pecha de “quase assassinos”:

Transcorre hoje, mais um aniversário do ‘putsch’ integralista de 1938 quando imitando o golpe nazista de Viena do qual resultou o assassinato do chanceler Dollfuss. Os ‘camisas verdes’ atacaram o Palácio Guanabara visando assassinar o Chefe do Governo, incendiaram vários prédios da cidade e tentaram sequestrar altas patentes do Exercito e Marinha. Durante este golpe os integralistas executaram todas as medidas traçadas pelo plano conhecido como de autoria de comunistas. Agora pelas revelações do general Gois Monteiro sabe-se que tal plano muito serviu para a instalação da ditadura getuliana e foi falsificado e era de autoria dos ‘Camisas Verdes’.[20]

 

Ao mesmo tempo em que se continuava responsabilizando unicamente aos integralistas pelo levante de 1938, o texto aproveitava para inocentar o Exército da participação conjunta na elaboração e utilização do Plano Cohen com o objetivo de implantar o Estado Novo. O general Góes Monteiro, àquela altura favorável ao fim da ditadura que havia ajudado a implantar e outrora simpático ao III Reich, tinha seu depoimento utilizado como fonte fidedigna para apontar os integralistas como únicos culpados na falsificação e responsabilidade do falso plano, e consequentemente, a implantação do Estado Novo.

Nessa atmosfera de ridicularização e vilanização dos integralistas, os agentes do DOPS continuavam a investigá-los e tecer as suas considerações. Um relatório reservado divulgado um dia após o lançamento da Carta Aberta zomba dos seguidores de Plínio:

Os integralistas, tais como os sapos, estão trocando a pele, pretendendo voltar a coaxar. Os elementos mais destacados estão esperando a palavra de ordem do Sr. RAYMUNDO PADILHA, a fim de se rearticularem, tendo para isso dado os primeiros passos em todas as cidades onde existiu [sic] núcleos dessa agremiação. Apresentar-se-ão com nova pele, mas não deixarão nunca de ser ‘sapos’.  A sua grande esperança, é alimentada pelo ‘possível desentendimento’ dos russos com as nações unidas.[21]

 

Raimundo Padilha, ex-chefe provincial do Rio de Janeiro, era o “Representante do Chefe Nacional”, desde a partida de Plínio para o exílio, e foi um dos principais coordenadores da reorganização integralista.

Quanto ao “desentendimento” entre os aliados, esperado pelos integralistas ocorreu e foi, de fato, um importante fiador da existência do integralismo no pós-guerra. O início da Guerra Fria, o sempre presente anticomunismo das instituições políticas brasileiras que culminaram na cassação do PCB em 1947, e a disseminação do medo ao “perigo vermelho” nas décadas seguintes, fizeram que as elites relevem a um segundo plano o passado fascista dos integralistas e aceitem o PRP no jogo político nesse momento. Nesse sentido, o anticomunismo integralista foi amplamente aceito e estimulado na ordem política brasileira do pós-Estado Novo.

E, de fato, os integralistas prosseguem sua reorganização ao longo daquele agitado ano de 1945, tendo grande hostilidade da sociedade em seu encalço. Porém, um dos objetivos imediatos naquele momento deveria ser a organização de um novo partido político para as eleições presidenciais e legislativas no final do ano. Isso apesar de alguns militantes desejarem a pura e simples reativação da Ação Integralista, já que argumentavam que a ditadura tinha extinguido todos os partidos e não apenas a AIB em particular[22].

De qualquer modo, o DOPS continua observando essa movimentação sobretudo através do material de imprensa. Assim, já em janeiro um artigo publicado no Correio Paulistano, sugeria que Salgado, a partir de seu exílio de Portugal, estaria se aproximando da Igreja Católica para formar um partido de orientação confessional, com o objetivo de neutralizar a indisposição política contra ele e seu movimento. Essa visão, contudo, desenvolvida antes ainda do término da guerra, defendia que Plínio fazia isso apenas como uma espécie de disfarce político, e que seguiria ordens de Berlim:

Neste momento, o sr. Plínio Salgado, através da Emissora Nacional, de Lisboa, que, embora pertencente à nação portuguesa, não hesita em ceder o seu microfone a um exilado político mais do que fichado como amigo do Eixo, está fazendo pregação, uma falsa espécie de cristianismo, segundo a linha de propaganda de Berlim, segundo a qual a vitória das Nações Unidas será o esmagamento da civilização ocidental pelas hordas bárbaras da Rússia. Segundo Plinio Salgado, é preciso erigir a igreja em baluarte contra esta invasão. O seu pensamento é claro: o que ele quer, na verdade, é fazer com que o integralismo sobreviva sob um nome novo – o de um Partido Católico, por exemplo, amparado pela parte mais conservadora do clero e pela parte mais reacionária do capitalismo e da burguesia nacional. Também Plinio Salgado está procurando servir aos interesses de Berlim, cujo último recurso e cuja última esperança consiste em procurar, a todo custo, semear a desconfiança e a discórdia entre os povos que lutam contra o nazismo.[23]

 

Em maio, o jornal O Estado de Goiás noticiou que os integralistas daquele Estado estavam “se arregimentando em torno de um partido ao qual vão dar o nome de Liga Progressista”, e cujo manifesto já teria sido redigido pelo líder integralista Paulo Paulista de Ulhôa Cintra[24]. Não encontramos quaisquer confirmações dessa informação, sequer sobre a existência, em algum momento, de uma associação com esse nome, em Goiás ou outro lugar. É também curioso que Cintra foi militante da AIB em São Paulo, onde foi redator do diário Acção, e chefe municipal na cidade de São Bernardo, e não em Goiás.[25]

A ideia de que o integralismo voltaria com um nome relacionado à religião parecia ganhar terreno ao longo daqueles meses. No final de julho, um comunicado do Serviço Secreto do DOPS denominado “Os integralistas em ação” mostra atenção às tentativas de reorganização institucional dos seguidores de Salgado como uma espécie de disfarce para enganar a população, usando instituições de confiança da sociedade, como a Igreja Católica.

Como se propalava, e era mesmo esperado, os integralistas voltaram a se rearticular.

Sob a denominação patriótica e atraente de ‘AÇÃO NACIONAL CATÓLICA’, e com o apoio dos meios clericais, os antigos partidarios do sr. Plinio Salgado estão se arregimentando, não só para tomarem parte no próximo pleito eleitoral, como para formar fileiras ao lado dos que, no País, iniciaram o combate ao Comunismo.

Em breves dias, a AÇÃO NACIONAL CATOLICA ou a AÇÃO CATOLICA NACIONAL – titulo em torno do qual não obtiveram certeza – lançará um claro e positivo manifesto à Nação, surgindo concomitantemente de todos os grandes centros do Brasil, chamando a atenção do povo para o perigo que tenta invadir o País, com a celebração oficial de atos atentatórios aos nossos mais rígidos princípios de família, moral, religião e instituições[26].

 

Este trecho do comunicado do DOPS-SP mostra algumas movimentações que estavam em gestação e mais tarde se confirmariam, outras não. O excerto se refere, por exemplo, a um “manifesto à Nação”, que Plínio de fato escreveu em julho em seu exílio em Portugal, e que seria divulgado no Brasil a partir de 1º de setembro, que é o Manifesto-Diretiva, um dos documentos mais importantes da reestruturação do integralismo, pois ali Salgado já traça algumas metas que os integralistas deveriam seguir em seu retorno à vida política nacional e, particularmente, em relação às eleições vindouras[27]. Contudo, ao contrário do que a nota sugere, o manifesto de Salgado não tem menções importantes ao combate anticomunista. Não obstante esse fato, o investigador enfatizou o caráter de luta contra essa força política, dando-lhe um verniz positivo e simpático.

Quanto a “formar fileiras ao lado dos que se batem contra o comunismo”, provavelmente o documento policial se refere às organizações anticomunistas Cruzada Brasileira de Civismo (CBC) e União de Resistência Nacional (URN), que possuíam membros integralistas, além de militares e religiosos, e que já deveriam estar em gestação (seriam criadas oficialmente em setembro de 1945). O nome da entidade que faria referência ao catolicismo é que não se concretizou, mas é compreensível que ele tenha sido abordado. Nos últimos anos do exílio, Salgado passou a escrever textos de cunho político-religioso, isto é, associando religião e política, como forma de renovar e “desfascitizar” a doutrina integralista, justamente para torná-la mais “atraente” no pós-guerra. Um de seus livros mais paradigmáticos desse período é justamente O Conceito Cristão de Democracia[28].

Uma série de quatro despachos da Asapress, anexados aos dossiês referentes ao integralismo mostra a visão conspiratória e de inquietação por parte da grande imprensa, já referida, em relação à reorganização dos integralistas. No primeiro deles, datado do final de junho, afirma que os integralistas já tinham uma sede no centro da Capital da República, à Rua 13 de Maio, 14. Ali, “velhos partidários dos camisas verdes começaram entregando títulos eleitorais a seus amigos e outros documentos com os quais seus chefes estão compondo o processo para requererem registro como partido nacional.”[29]

Mas os termos mais duros foram publicados em despachos do início de julho. Ao mesmo tempo em que cogitam das prováveis candidaturas dos militantes, bem como sua arregimentação eleitoral, usam expressões como “cabala subterrânea”, “partido traição”, “incompreensíveis disfarces”, “lobisomens verdes”, sempre apontando para uma memória social que os integralistas não desejavam e se esforçavam para que fosse esquecida.

A imprensa carioca diz que os integralistas terão o seu candidato, não somente à Presidência da República, mas ao parlamento, e que a cabala, embora subterrânea, tem sido intensa. Diz que o emissário que demanda a antiga capital do reino [ou seja, José Loureiro Jr., genro de Plínio Salgado, vindo de Lisboa], deverá apresentar vários nomes, que o “partido traição” oferecerá para a sagração das urnas. A imprensa comenta também que, paralelamente, acentua-se, ao lado dos trabalhos políticos, inicia-se uma campanha para a formação de fundos para o trabalho eleitoral. Para esse fim, cada um dá o que pode: diz que esses postos multiplicam-se sob os mais incompreensíveis disfarces, alojando-se em casas comerciais, nas empresas de transportes, etc., de forma a constituir uma verdadeira cadeia integralista visando proteger os saídos da prisão após a anistia, etc. [30]

 

Esta outra indica uma reportagem publicada no vespertino O Globo, do Rio de Janeiro, que era um grande opositor dos integralistas. É interessante notar que a própria notícia qualifica a reportagem de ser contrária ao evento relatado. Notemos também a curiosa expressão “condottiere do fascismo índio” para adjetivar Plínio Salgado:

Continua com amplo destaque na imprensa, as reportagens contra a rearticulação do integralismo. Entre os jornais todos, se destaca o “O GLOBO”, que conseguiu penetrar no reduto dos galinhas verdes. Esse vespertino, sob o título ‘Desmascarada a trama dos lobisomens verdes no Rio’, diz que os integralistas aguardam, apenas, o retorno do emissário que foi ao estrangeiro entender-se com o sr. Plinio Salgado, para reiniciarem as suas campanhas ostensivas. Acrescenta que os seus estatutos estão prontos, de forma que surgirão como partido que camuflará o integralismo, restando somente a palavra final do grande “condottiere” do fascismo índio, que deve estar chegando à Lisboa, à bordo do “DOM PEDRO I”. O referido emissário leva incumbência de apresentar ao sr. Plinio Salgado, o quadro das realidades brasileiras no domínio politico.[31]

 

Há, pois, uma considerável indisposição de parte da grande imprensa em relação aos integralistas, nesse momento em que os mesmos retornam à cena política, no pós-guerra. Segundo o historiador Rogério Lustosa Victor:

Nesse novo contexto, de maior abertura da imprensa e início da democratização, os integralistas começaram a articular-se para reorganizarem o velho partido. No entanto, no espaço público, o veto à memória integralista estava posto, o que estabelecia ambiente político inóspito à rearticulação dos ex-camisas-verdes. Reiniciava-se uma série de publicações de cunho pejorativo no que concerne a Salgado e à extinta AIB. Supomos que essas narrativas encontraram uma comunidade de sentido já constituída e corroboraram a atualização da memória social negativa que se formou em relação ao integralismo. Semelhante memória construiu-se a partir, principalmente, das narrativas publicadas pela grande imprensa durante o Estado Novo, especialmente depois do golpe de maio de 1938, atribuído aos integralistas. Depois desse último, [...] a imprensa ‘abriu fogo’ contra os integralistas que não puderam responder publicamente aos ataques de seus inimigos políticos, em função da censura imposta pelo governo [do Estado Novo][32] (VICTOR, 2012: 93).

 

O DOPS acompanhou atentamente as tentativas integralistas de reinserção na política brasileira durante a transição do Estado Novo para o novo período pluripartidário. A atitude policial nos permitiu conhecer os passos que eles tomaram nesses momentos difíceis para eles, em que seu grupo estava fortemente estigmatizado a partir do resultado final da II Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que todos os outros partidos faziam reuniões públicas e proclamavam em alto e bom som seus projetos e propostas, inclusive os historicamente perseguidos comunistas que, naquele momento, iniciavam uma curta passagem pela legalidade institucional[33].

Nesse momento, a visão do DOPS-SP em relação ao integralismo também vivia uma transição. Tendo como subsídio informativo abundante material de imprensa, todo ele de teor pró-Aliados, alguns dos relatórios redigidos por seus agentes mostravam preocupação com a reorganização dos velhos camisas-verdes. Outros criticavam abertamente o que restou daquele movimento. Alguns aparentam neutralidade, mas localizamos pelo menos um investigador que, simpático ao claramente anticomunismo dos seguidores do Sigma, faz-lhes um discreto elogio. No que toca ao DOPS, a “comunidade de sentido” e a “memória social” faz algumas rachaduras. Depois de 1946, com a fundação oficial do PRP, o anticomunismo integralista e o da polícia política fez surgir eventuais simpatias dessa para com os velhos camisas verdes. Apesar disso, o DOPS não cessou as investigações aos seguidores de Plínio Salgado.

Assim como na maior parte do Ocidente, 1945 foi um ano de reorganização da política interna brasileira, após a derrota dos regimes fascistas com o fim da II Guerra Mundial. Localmente, isso repercutiu na queda do Estado Novo, regime autoritário e que inicialmente flertou com o fascismo. Nesse cenário, outra matriz política brasileira a se aproximar do fascismo, o integralismo, criado pelo escritor brasileiro Plínio Salgado em 1932 e colocado na ilegalidade em 1937, tentou dar os primeiros passos de um retorno à cena política, tal qual acontecia com outros partidos, incluindo o Partido Comunista do Brasil (PCB) e as velhas oligarquias.

A polícia política do Estado de São Paulo (DOPS-SP), criada em 1924, tendo atuado durante décadas até sua extinção em 1983, teve papel importante na elaboração e na perseguição do chamado “inimigo interno” no cenário político social brasileiro, sobretudo nos períodos ditatoriais (mas não só). Ao contrário do que se pensou, vemos aqui que o “inimigo interno” não se limitou apenas à esquerda (anarquistas, socialistas e comunistas), mas, eventualmente a uma direita que se também tornou indesejável para o aparato de Estado - e cuja repulsa e proscrição serviram ao governo de então para ostentar um suposto antifascismo – tendo se tornado também alvo da vigilância do aparato policial de Estado.

A investigação dos integralistas nesse momento revela as fontes que o DOPS utilizava para montar seu painel: a imprensa, panfletos partidários e até boatos. Tais fontes – revelando-se espelhos de uma relação dialógica da polícia com outras instâncias da sociedade – demonstram o clima negativo que o integralismo enfrentava naquele momento e suas dificuldades de reinserção na sociedade brasileira do imediato pós-guerra. Essa dificuldade foi superada nos anos seguintes de forma apenas parcial, já que o Partido de Representação Popular, também liderado por Plínio Salgado, jamais terá, nas décadas de 50 e 60, a importância que teve a Ação Integralista Brasileira nos anos 1930.

 

Notas:

[1] Salgado foi membro e chegou a ser deputado estadual pelo Partido Republicano Paulista no fim dos anos 1920. Em suas memórias, Miguel Reale, um dos principais teóricos do integralismo nos anos 30 e que  mais tarde abandonou a ideologia, insinua que a sigla do novo partido integralista teria sido proposital, como se Plínio pretendesse retornar “às suas origens perrepistas” (REALE, 1986: 144).

[2] Sobre o integralismo nos anos 30 (ou seja, sob a forma de Ação Integralista Brasileira), há uma bibliografia considerável. Para uma abordagem ampla, uma obra de referência ainda é TRINDADE (1979).

[3] Ou pelo menos, Salgado assim reivindicava. Entre as ideias as quais os integralistas teriam “pensado antes”, o chefe integralista pontua os Ministérios da Aeronáutica e das Comunicações, a LBA (Legião Brasileira de Assistência), serviços sócias do comércio e da indústria e os restaurantes populares, além da própria ideia de partidos nacionais. “A influência do Integralismo na vida brasileira sente-se hoje de maneira tão forte, que em todos os partidos e nos setores mais diversos das atividades políticas, sociais e culturais do país, erguem-se vozes a expender conceitos que se enquadram de modo absoluto no ideário do Sigma”. Essas afirmações, contudo, devem ser analisadas com cuidado. Trata-se de mais uma tentativa sua de superar a rejeição ao seu nome e de sua agremiação política no pós-guerra (SALGADO [1957]: 55 – 85).

[4] Dantas abandona definitivamente a tendência fascista, tornando-se um político pragmático e, eventualmente, progressista. Ele é o arquiteto da Política Externa Independente do governo Goulart, que propunha reatar relações com a URSS e os governos do Leste Europeu (o que foi veementemente rejeitado pelo PRP).

[5] Ao longo de sua existência, entre 1924 e 1983, o DOPS-SP mudou de nome várias vezes. Adotamos este para o artigo, pelo fato de este título ter se consagrado. Sobre o DOPS-SP, ver: AQUINO et al. (2001). É importante ressaltar que cada estado brasileiro tinha sua própria polícia política, que era subordinada ao governador do estado em questão.

[6] O DOPS esteve atento para a anistia dos presos integralistas. Há duas notícias da agência Asapress, anexadas num dossiê, que contêm listas de anistiados do movimento do sigma. As listas são quase repetidas, pois alguns nomes não coincidem. Os nomes mais conhecidos são os de Belmiro Valverde e Severo Fournier (grafado “Severino Funier”), que foram os principais líderes do levante de maio de 1938. Fournier, é importante lembrar, não era integralista, sendo um dos representantes dos “liberais” no levante. Fournier morreu um ano depois de sua libertação, devido a uma pneumonia que desenvolveu na prisão. “ASAPRESS”, 19/04/1945 (24-Z-5-18) e 24/04/1945. 24-Z-5-19. A notícia do dia 24 fala de um anistiado, Maurício da Costa Pereira (citado na lista do dia 19) que não pode sair por “determinação médica ficou na ilha [Grande? Fernando de Noronha?] devendo regressar amanhã ou depois, de trem.”

[7] O governo de Getúlio Vargas enviou cerca de 25 mil soldados – integrados no V Exército dos EUA - para lutar na Itália contra tropas alemãs em 1944 e 1945.

[8] Relatório reservado R-1 ao Delegado Chefe do Setor de Ordem Política, São Paulo, 22/03/1945, 24-Z-5-280 (pasta 2). Maiúsculas, pontuação e grifos no original. A grafia foi atualizada.

[9] Segundo Miranda, outras entidades assistencialistas integralistas investigadas foram o Auxílio às Famílias Empobrecidas (AFÉ) e a Associação Feminina dos Encarcerados, que tinha a mesma sigla. Essa documentação está depositada no APERJ (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro).

[10] Relatório reservado R-1 ao Delegado Chefe do Setor de Ordem Política, São Paulo, 22/03/1945, 24-Z-5-282 (pasta 2).

[11] Id. A pontuação está conforme o original.

[12] É importante notar as ausências de outros importantes líderes: Plínio Salgado, que estava no exílio; e Miguel Reale, Santiago Dantas e o padre Helder Câmara, que já tinham abandonado o integralismo. Sobre a saída de Reale, Dantas e outros líderes integralistas do movimento, ver VICTOR (2012: 195 – 203).

[13] “Secção ineditorial – Carta aberta à Nação Brasileira – A extinta ‘Ação Integralista Brasileira’ no tribunal da opinião pública”. In: A Noite (Rio de Janeiro), 7/5/1945, sem indicação de página. Anexado em 24-Z-5-39 (pasta 1).

[14] São os seguintes os agrupamentos de acusações: “I – A extinta ‘Ação Integralista Brasileira’ recebia auxílios financeiros de países estrangeiros. II - A extinta ‘Ação Integralista Brasileira’ também recebeu armamentos de países estrangeiros. III - A extinta ‘Ação Integralista Brasileira’ tinha ligações políticas com potências estrangeiras. IV - A extinta ‘Ação Integralista Brasileira’ é totalitária e sua doutrina é nazi-fascista. V - A extinta ‘Ação Integralista Brasileira’ é anti-americanista.” Em verdade, todas elas se referiam a supostas ligações dos integralistas com o Terceiro Reich e com a Itália fascista, bem como seu caráter de semelhança ideológica com os fascismos europeus. “Seção ineditorial...”, já citada.

[15] A Asapress era uma agência que fornecia notícias à grande imprensa. Começou suas operações em outubro de 1942. Em 1961, na ocasião do seu 19° aniversário, possuía “30 estações transmissoras instaladas nas capitais dos Estados e Territórios” (“19° aniversário da Agência ‘Asapress’”, Folha de S. Paulo, 22/10/1961, p. 8). Encerrou suas atividades em 1969 (“’Asapress’: funcionários querem indenização”, Folha de S. Paulo, 15/05/1969, 1° caderno, p. 5).

[16] “Asapress”, 7/5/1945. Anexado em 24-Z-5-40 (pasta 1).

[17] “Asapress”, 12/5/1945. Anexado em 24-Z-5-41 (pasta 1). É importante ressaltar, contudo, que havia de fato um Artur Thompson (com “H”) Filho que militou na AIB, e inclusive foi membro da importante Câmara dos 40. V. TRINDADE (1979: 309).

[18] “Asapress”, 11/5/1945. Anexado em 24-Z-5-42 (pasta 1). O documento é datado do dia 6, mas foi divulgado no dia 7, data do despacho da Asapress. Contudo, 7 de maio foi uma segunda-feira, dia que a maioria dos jornais não circulava. Assim, o conteúdo acabou por ser divulgado na terça, dia 8 de maio, que coincidiu com o dia da rendição incondicional do III Reich aos exércitos Aliados, que ficou conhecido como o “Dia da Vitória”.

[19] A chamada “Intentona Integralista” foi um levante composto não apenas por integralistas, como também por alguns liberais descontentes com o golpe do Estado Novo e a consequente proibição de todos os partidos políticos. Ocorreu em 11 de maio de 1938 e seu foco principal foi a tentativa da tomada do Palácio Guanabara, a residência oficial do presidente. O levante durou algumas horas e terminou com a derrota completa dos insurretos. Sobre o movimento de 11 de maio, ver: SILVA (1971).

[20] “Asapress”, 11/5/1945. Anexado em 24-Z-5-43 (pasta 1).

[21] Relatório reservado R-6 de agente não identificado ao Delegado Chefe de Setor de Ordem Política, São Paulo, 8/5/1945, 24-Z-5-278 (pasta 2).

[22]A Ação Integralista Brasileira é já um partido legalmente registrado na justiça eleitoral, por força e disposições expressas no Decreto-Lei nº 7586 de 29 de maio de 1945”, dizia um parecer jurídico de autor não-identificado. Tal decreto revogava a extinção dos partidos políticos em dezembro de 1937. (CALIL, 2010: 38, nota 82).

[23] MAGALHÃES Jr., R. “O integralismo a serviço dos alemães”, Correio Paulistano, 10/01/1945. Artigo transcrito de A Noite (Rio de Janeiro). Anexado em Comunicado preparado pelo setor S-1, 24-K-12-23 (pasta 1). O grifo é do DOPS. O comunicado do investigador enfatiza que uma das principais preocupações ao anexar o artigo ao dossiê era que Salgado, de Lisboa, estava “tentando fazer renascer a sua ideologia sob a capa de um novo partido político”.

[24] “Asapress”, 14/05/1945. 24-Z-5-44 (pasta 1). Sublinhado no original.

[25] Cintra era advogado. Antes de sua militância na AIB, foi delegado de polícia em Santo André (na época, um bairro do município de São Bernardo, o qual abarcava todo o atual ABC Paulista), até a chamada Revolução de 1930. Enquanto era chefe municipal de São Bernardo, ele advogava em escritórios na Praça da Sé e próximo à estação ferroviária de Santo André. Foi também membro da Câmara dos Quatrocentos (DOTTA, 2003: 33).

[26] “Os integralistas em ação”, comunicado preparado pelo S-1 para o Serviço Secreto, São Paulo, 29/07/1945. 24-Z-5-265. Grifos meus.

[27] Uma versão do Manifesto-Diretiva está em SALGADO (1955: 353-389).

[28] Publicado ainda em Portugal (Coimbra: Estudo, 1946). Nesse período, Salgado publicou uma série de livros de cunho religioso: Vida de Jesus (São Paulo: Panorama, 1942); A Aliança do Sim e do Não (Lisboa: Ultramar, 1943); O Rei dos Reis (Lisboa: Pro Domo, 1946); Primeiro, Cristo! (Porto: Figueirinhas, 1946); A Tua Cruz, Senhor (Lisboa: Ática, 1946). As datas se referem à primeira edição de cada obra. Para uma relação biobibliográfica detalhada do fundador do integralismo, ver: DOREA (1980).

[29] “Asapress”, 19/06/1945. 24-Z-5-259 (pasta 2).

[30] “Asapress”, 03/07/1945. 24-Z-5-262 (pasta 2).

[31] “Asapress”, 03/07/1945. 24-Z-5-262 (pasta 2). Negrito meu.

[32] Segundo Victor, memória social é “a leitura mais compartilhada do passado, oriunda de ampla rede discursiva que ocupa o espaço público,” o qual formaria a “comunidade de sentido (VICTOR: 2012, 30).

[33] O Partido Comunista do Brasil (PCB), liderado por Luiz Carlos Prestes, teve um curto período de legalidade, entre 1945 e 1947, tendo participado de eleições e elegido um senador (Prestes), deputados e vereadores por todo o país.

 

Bibliografia:

  • AQUINO, Maria Aparecida de, et al. (org.) (2001). No Coração das Trevas: O DEOPS/SP visto por dentro. São Paulo: Arquivo do Estado: Imprensa Oficial. 
  • CARVALHO, José Murilo de (2010). “Chumbo grosso – Assassinato e tortura eram práticas comuns da polícia política durante a ditadura de Getulio Vargas”.  Revista de História da Biblioteca Nacional. http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/chumbo-grosso. [13/04/2016].
  • DOREA, Gumercindo Rocha (1980). “Biobibliografia de Plínio Salgado”. In: SALGADO, Plínio. Tempo de Exílio. Correspondência familiar 1. São Paulo: Voz do Oeste.
  • DOTTA, Renato Alencar (2003). O Integralismo e os Trabalhadores – As Relações entre a AIB, os Sindicatos e os Trabalhadores através do Jornal Acção (1936-1938).  São Paulo: FFLCH-USP.
  • _____ (2016). Elementos Verdes – Os integralistas brasileiros investigados pelos DOPS-SP (1938-1981). São Paulo: FFLCH-USP.
  • HOBSBAWM, Eric (2010). Era dos Extremos – O Breve Século XX. São Paulo: Companhia das Letras.
  • MELLO, Olbiano de (1957). A Marcha da Revolução Social no Brasil. Rio de Janeiro: O Cruzeiro.
  • MIRANDA, Gustavo Felipe (2009). O poder mobilizador do nacionalismo: integralistas no Estado Novo. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro: IFCS-UERJ.
  • NASSER, David (1947). Falta alguém em Nuremberg. Torturas da polícia de Filinto. Rio de Janeiro: J. Ozon.
  • REALE, Miguel (1986). Destinos Cruzados – Memórias (volume 1). São Paulo: Saraiva, 1986.
  • SALGADO, Plínio [1955]. “O Integralismo Perante a Nação”. In: Obras Completas. São Paulo: Editora das Américas, volume 9.
  • _____ [1957]. O Integralismo na Vida Brasileira. Rio de Janeiro: Edições GRD/Livraria Clássica Brasileira.
  • SILVA, Hélio (1971). 1938 – Terrorismo em campo verde. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  • TRINDADE, Hélgio (1979). Integralismo – O Fascismo Brasileiro na Década de 30. São Paulo/Porto Alegre: DIFEL/UFRGS.
  • VICTOR, Rogério Lustosa (2012). O Labirinto Integralista: o PRP e o conflito de memórias (1938-1962). Goiânia: IFITEG Editora.

 

Cómo citar este artículo:

ALENCAR DOTTA, Renato, (2017) “O retorno dos integralistas no imediato pós-guerra aos olhos da polícia política de São Paulo (1945-1946)”, Pacarina del Sur [En línea], año 8, núm. 32, julio-septiembre, 2017. Dossier 21: Las Derechas en América Latina. Historia y actualidad.

Consultado el Sábado, 16 de Diciembre de 2017.

Disponible en Internet: www.pacarinadelsur.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1501&catid=66