Pacarina del Sur
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O Intelectual Latino Americano

El intelectual latinoamericano

The Latin American Intellectual

Ronie Alexsandro Teles da Silveira[1]

RECIBIDO: 13-09-2016 APROBADO: 09-11-2016

Resumen

Resumo: Esse artigo discute o sentido do trabalho intelectual na América Latina (AL). Ele parte da constatação de uma característica adquirida através colonização na AL: a fragmentação cultural. Essa característica nos conduz a reconhecer que o trabalho intelectual que se realiza na AL é de matriz europeia. Portanto, estritamente falando, no ambiente cultural latino americano o trabalho intelectual não faz sentido algum.

Palavras-chave: trabalho intelectual, América Latina, fragmentação cultural, colonização.

 

Duas Colonizações

A maneira pela qual a atividade intelectual tem sido realizada na América Latina é uma das consequências do processo histórico da colonização ibérica. Como sabemos esse processo não concretizou plenamente aquilo que qualquer colonização almeja: o domínio de uma cultura sobre a outra. Em função disso, se estabeleceram algumas características específicas que definem o modo como o exercício da atividade intelectual tem se realizado na América Latina. São essas características que interessam diretamente ao presente texto.

Uma comparação com o processo de colonização anglo-saxão poderá nos auxiliar a compreender melhor o que é próprio da situação latino americana. No caso do processo anglo-saxão, a colonização da América se operou completamente, chegando ao termo daquilo que é designado por esse conceito. Ali a cultura autóctone cedeu espaço à cultura importada, de tal maneira que esta recobriu a superfície do novo mundo, dando-lhe nova forma e conteúdo. O mundo americano anglo-saxão foi inteiramente moldado pela cultura importada da Europa em detrimento das culturas autóctones. É significativo que José Martí (2005: 15) tenha denominado esse mundo de “América Europeia”.

Na América Ibérica, a colonização não de concretizou plenamente, ficando a meio termo entre o expurgo da cultura original e o pleno domínio pela cultura importada. Sobre esse insucesso, Tannenbaum afirmou que “Si por conquista entendemos la total submissión de um país a um conquistador, esta submissión nunca fue totalmente consumada.” (1972: 33). Nesse caso, não apenas não se eliminou a cultura aborígene como se acrescentou a ela um novo elemento estranho ao período da conquista: a cultura africana traficada à força para servir de mão de obra escrava.

Com esse último acréscimo, diferentemente disperso pelos países da América Latina, o conjunto gerou um aglomerado de princípios culturais sem que uma unidade fosse suficientemente capaz de exercer sobre ele um domínio efetivo. Domínio que é necessário a qualquer processo de colonização propriamente dito. Sem ele, parece muito apropriado nos referirmos a um “fracaso de la colonización” (1972: 34).

Não é um objetivo explorar aqui os mecanismos históricos específicos que conduziram ao estabelecimento da situação cultural latino americana em que diferentes elementos encontram-se dispostos de maneira não plenamente integrada. Portanto, está fora das pretensões desse texto abordar as causas da colonização incompleta da América Latina. Nesse momento, não importa se isso se deu pela insuficiência da força exercida pelos ibéricos ou se pela resistência superior das culturas autóctones e africanas. Interessa reconhecer apenas que a situação da América Latina é a de uma integração inconclusa, de uma colonização que não foi capaz de chegar ao propósito específico daquilo que se compreende comumente por esse conceito.

Colonizar significa impor domínio, substituir o significado do que é dado por outro, alterar substancialmente a face do mundo de maneira a que ela espelhe o conjunto de valores desejados pelo colonizador. Assim compreendida, é claro que a colonização envolve relações de força em que um dos atores é capaz de exercer um domínio visando moldar um novo mundo.

Esse texto também não se ocupará da moralidade ou imoralidade desse processo de colonização, embora elas estejam presentes em função daquelas relações de força. Não parece fazer sentido realizar avaliações morais de eventos culturais, como se estivéssemos em condições de alterar seu rumo em função de uma disposição individual da vontade ou se a mera indignação pessoal nos trouxesse algum benefício. Como a colonização da América Latina não pode ser historicamente revertida, passemos adiante e nos concentremos nos resultados que ela produziu e com os quais temos de lidar ainda hoje.

Desbastada a trilha principal em que nos adentraremos a partir de agora, já foi destacada a diferença entre um processo de colonização bem sucedido – o da América Anglo-saxã - e um que não foi devidamente finalizado – o da América Latina. Note, entretanto, que a designação bem sucedido não deve ser identificada com aquilo que é bom e que deveria, por isso, funcionar como modelo ideal de um processo de contato entre culturas diferentes. A colonização é apenas uma forma possível desse contato. Assim, bem sucedido designa o processo que cumpriu o objetivo contido na definição de colonização: ter tornado dominantes os valores culturais do colonizador. Para todos os efeitos, entenda-se também que uma colonização não inteiramente finalizada ou mal sucedida é ainda uma colonização. Ela também é uma modalidade de contato entre culturas diferentes que se estabeleceu historicamente.


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O resultado da intervenção colonizadora gerou um resultado específico na América Latina, distinto daquele produzido por uma colonização bem sucedida. Essa situação caracteriza-se por uma insuficiente integração dos elementos que fazem parte da cultura latino americana. Trata-se de um resultado que compatibilizou, sem unificar, fatores de origem e tendências distintas.

A evidência da ausência de uma efetiva integração entre os elementos culturais latino americanos pode ser percebida em todas as circunstâncias de nossa vida e não seria possível esgotar o assunto aqui. Permito-me, assim, remeter o leitor a outras obras em que essa característica latino americana pode ser identificada nas acentuadas diferenças sociais (SARMIENTO, 1973), na ausência de história (ZEA, 1942; 1974), na persistência de traços econômicos coloniais (STEIN e STEIN, 1970) e até na distribuição da posse da terra (LAMBERT, 1972). Também se nota essa integração inacabada no plano geral da cultura (GUIRIN, 2001), da religião (LOPES e SILVEIRA, 2016) e, mais particularmente, nas festas populares (SILVEIRA, 2016b). Um panorama geral acerca dessa falta de integração da cultura latino americana também pode ser encontrado (SILVEIRA, 2015; 2016a).

Como o interesse aqui é explorar as implicações dessa situação de falta de integração cultural, derivada de uma colonização incompleta, para as atividades intelectuais na América Latina, limito-me a remeter o leitor interessado para essas obras. Essas implicações são relativas àquele “núcleo profundo” (MANSILLA, 2002: 27) que constitui um conjunto de valores presentes na prática intelectual latino americana. Como se verá adiante o termo, na verdade, não é dos mais apropriados.

 

O mundo orgânico do intelectual europeu

No caso da bem sucedida colonização anglo-saxã a dimensão destinada à atividade intelectual parece estar bem delineada. Como se trata de uma situação cultural integrada sob o domínio pleno dos valores europeus, cabe ao intelectual inserido nesse ambiente agir de acordo com a herança cultural da Europa. Afinal, tendo a cultura europeia se sobreposto às demais culturas, autóctones ou importadas, o intelectual anglo-saxã é um herdeiro direto da tradição colonizadora. Para todos os efeitos, ele possui um vínculo orgânico com o mundo europeu de onde retira os elementos norteadores da atividade intelectual que realiza. Essa ligação orgânica fornece-lhe balizas que permitem estabelecer conexões com a história do ocidente, se necessário descendo até suas raízes - gregas, romanas, judias e cristãs, por exemplo.

De certa forma, esse intelectual possui um conjunto de elementos que estruturam a forma e o conteúdo de sua atividade e garantem que os resultados dela obtidos possam ser compatibilizados com o restante da cultura. Isso não significa, obviamente, que os resultados da atividade intelectual sejam todos consistentes uns com os outros. Pelo contrário, isso significa que todos eles fazem parte de uma unidade em que eventuais diferenças podem ser dispostas dentro de uma mesma moldura que permite, inclusive, que elas se contradigam entre si. Essa moldura funciona tanto em um sentido horizontal, em que se podem comparar produtos intelectuais contemporâneos, como em um sentido vertical, em que se podem estabelecer relações históricas entre eles. Nos dois casos, ela fundamenta a possibilidade de uma compreensão unitária dos resultados da atividade intelectual.

Observe que essa integração sob os valores ocidentais permite que jamais se perca a orientação a despeito das aparentes rupturas que possam se apresentar e que são, de fato, inevitáveis. Assim, podemos traçar relações de continuidade entre elementos aparentemente distantes, como o cristianismo e a ciência moderna (TAYLOR, 2010) ou obsevar a longa gestação da valorização cultural da autonomia no ocidente (SCHNEEWIND, 2005). Assim como vários outras, essas conexões e processos de longo prazo só adquirem compreensibilidade em função de poderem se situar no interior de uma mesma moldura integradora: a cultura ocidental.

Do mesmo modo que o cálculo matemático possuiria uma correspondência interna com as leis da natureza, de acordo com o postulado kantiano (KANT, 2001), os resultados da atividade intelectual na América Anglo-saxã conectam-se internamente com a matriz cultural da Europa. Esse universo comum garante que a atividade intelectual esteja articulada com o restante da cultura ocidental e possua conexões orgânicas com ela. Mesmo que um intelectual oriundo de uma cultura resultante de uma colonização bem sucedida se proponha a produzir produtos intelectuais de vanguarda (no sentido de se diferenciarem de tudo o que existe), ainda assim, ele não perderá as conexões que tornam sua obra significativa para a cultura ocidental. Ele sempre se move no interior da cultura que se tornou sua por meio da colonização.

Os limites de sua atividade estão demarcados por uma relação de integração profunda com um conjunto de valores que fornece os elementos e as possibilidades de significação para o seu trabalho. De certa forma, nesse ambiente o trabalho intelectual está sempre ligado ao mundo da cultura europeia e não pode exercer-se além desse limite. Isso ocorre justamente em função da integração cultural já realizada, por certa uniformidade em torno de um conjunto de valores que se tornaram hegemônicos. É a colonização bem sucedida que fornece um mundo em que os produtos intelectuais estão integrados ou um mundo para o qual a própria atividade intelectual pode ser significativa.

Esse mundo integrado pode muito bem ter sido obtido por meio da violência, através da eliminação dos procedimentos culturais que não se mostraram compatíveis com os valores europeus. Mesmo nesse caso, o dispositivo resultante permite a manifestação de produtos diversificados desde que compatíveis com sua base já consolidada. Assim, mesmo que forjada originalmente sob o exercício da exclusão e da violência, a integração garante uma base de significabilidade para uma produção intelectual diversificada, no interior de uma moldura básica.

Observe como, nesse caso, um produto intelectual (uma teoria, um ensaio, etc.) não é significativo exclusivamente em função de seus méritos específicos, mas também em função de uma integração bem realizada com a cultura ocidental. O valor de um produto intelectual específico não resulta apenas de suas características internas, mas também daquele conjunto de valores que lhe garante as condições de significabilidade e importância. São os valores culturais hegemônicos que, em última instância, tornam um produto dotado de valor. Afinal, para que um produto “tenha valor” ele deverá, em alguma medida, “atender a valores” já estabelecidos. Alguma ressonância deve se estabelecer aqui.

Claro que, dentro desse contexto geral de significatividade, alguns produtos serão considerados como dotados de algumas virtudes especiais. Porém, esse processo de valorização só ocorre em um segundo momento, após os produtos obterem aquela significatividade mínima por meio da ressonância com os valores hegemônicos.

O próprio reconhecimento social da importância da atividade intelectual é derivado dessa pertinência de seus produtos com relação ao conjunto de elementos hegemônicos que compõem uma moldura de aceitação já consolidada. Assim, o reconhecimento social é uma decorrência natural de um mundo cultural ordenado em que a atividade intelectual ocupa certo nicho específico, digno e importante em sua própria dimensão, dotado de sentido em sua própria esfera, além de constituído por determinados padrões práticos de comportamento.

Podemos dizer, então, que um intelectual do mundo europeu ou europeizado possui ligações orgânicas com um universo cultural. É essa articulação que fornece o sentido e que permite derivar reconhecimento social para a sua atividade. O próprio reconhecimento social é uma decorrência do fato de que a atividade intelectual encontra-se articulada com o restante dos processos culturais. Ele não se manifesta sem a presença da integração cultural nem poderia existir a despeito dela.

Destaco que essa situação não deve nos parecer desabonadora no sentido de que a atividade intelectual parece sempre balizada por valores preexistentes. Todas as atividades humanas integradas possuem, em alguma medida, tais relações de dependência com valores previamente aceitos. Mesmo em situações revolucionárias, em que alterações de padrões culturais são usuais, essas rupturas se realizam contra algo. E é por serem contra que as rupturas são limitadas e relativas a um quê predeterminado - contra o qual se defrontam. Elas encontram-se delimitadas, nessa situação de integração, por um ambiente que sempre detém a possibilidade de toda significação possível. Assim, uma ruptura cultural revolucionária só pode existir no interior de um panorama cultural integrado, dentro do qual ela pode investir contra algo. Isso certamente reduz o espectro de variações imagináveis, em função dos valores hegemônicos existentes que emolduram os produtos culturalmente possíveis. Porém, essa limitação ocorre na mesma proporção em que garante a eles uma significatividade possível – algo que é, de fato, muito próximo de uma relação transcendental (KANT, 2001).

Assim, quando avaliamos que determinado produto cultural é marginal, em função de suas características absolutamente inovadoras, estamos dizendo que ele encontra-se fora daquilo que é convencional. Porém, na verdade, também estamos dizemos que ele se encontra dentro das fronteiras daquilo que faz sentido e está perfeitamente integrado ao padrão do que é culturalmente possível. Por mais elástico que seja esse conjunto de valores emolduradores, ele garante a integração pela significatividade e propicia um pano de fundo geral e sólido que unifica o mundo dos produtos culturais. Entre esses produtos culturais estão aqueles que são próprios da atividade intelectual.

É nesse mundo orgânico que se move um intelectual europeu ou europeizado. Seja qual for a situação concreta ligada à atividade intelectual que se aí apresente, um intelectual sempre pode recorrer a alguma espécie de plano cartesiano implícito do qual ele retira as referências para nortear seu trabalho. Embora se trate de uma atividade contida, porque balizada por alguma modalidade desse plano cartesiano, ela o é dentro daqueles limites flexíveis, típicos das contenções de um mundo cultural integrado.

Nesse ambiente, marcado pela organicidade e pela integração, as conexões entre a atividade intelectual e a política operam-se de maneira automática. Afinal, entre elas há apenas uma diferença de nível de atividade, mas não de natureza. Afinal, trata-se da aplicação de ideias ao mundo prático. Entre essas ideias e o mundo já existe aquela conexão interna transcendental que garante a aplicabilidade. Ou seja, a integração cultural possibilita que os produtos intelectuais sejam aplicáveis ao ambiente político, já que possuem uma afinidade básica com ele. Essa é uma característica importante da situação cultural europeia, ligada ao modo como a atividade intelectual se vincula ao ambiente político, que fará enorme diferença quando transposta para o ambiente latino americano.


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O mundo fragmentado do intelectual latino americano

Nada de semelhante pode ser dito do trabalho intelectual na América Latina. Afinal, considerando que nesse caso não há integração cultural, a atividade intelectual deveria se conectar exatamente com que valores? Em um ambiente em que o domínio dos valores europeus não se estabeleceu nem permitiu que outros valores o fizessem, como se orienta a atividade intelectual sem a possibilidade de uma relação transcendental? Como se pode assegurar pertinência cultural para produtos intelectuais sem um pano de fundo integrado?

Não há aqui, certamente, aquela garantia de conexão interna com um conjunto de valores hegemônicos que garantiria a significatividade e a relevância da atividade intelectual. Daí a desorientação de qualquer intelectual que reconheça sua situação efetiva de operar uma atividade sem o respaldo de um mundo unificado sob determinados valores fundamentais. A situação cultural aqui pode ser descrita como a de uma verdadeira “resistência à integração” (LOBO, 1970: 18) com todas as consequências que obstruem a validade plena de um conjunto exclusivo de valores e que geram um ambiente fragmentado.

Que o intelectual latino americano exerce uma função desconectada com relação a valores consolidados é algo facilmente perceptível na prática. Por isso mesmo, é sempre mais fácil começarmos por aí. Considere, por exemplo, o fato da atividade intelectual não receber reconhecimento social na América Latina, como se ela não passasse de um gesto vazio e sem um significado efetivo. Daqui resultaram interpretações da atividade intelectual como socialmente irrelevantes, como a da razão ornamental (BUARQUE DE HOLANDA, 1984) e a da cultura literária (AZEVEDO, 1963). Em ambas, se constata que a atividade intelectual se exerce de maneira descompromissada com relação ao que seria a própria realidade nacional em questão.

Essa constatação pode conduzir erradamente à defesa da necessidade da atividade intelectual em conectar-se com o restante da cultura, como se o problema fosse o de sua perspectiva leviana e incapacidade de pensar a realidade local. Na verdade, o caráter artificial da atividade intelectual na América Latina não decorre da falta de compromisso dos intelectuais com o ambiente, mas da própria situação cultural não integrada.

Com isso, quero dizer que não há uma realidade nacional, culturalmente reconhecida, que funcione como elemento catalizador da atividade intelectual. Em um ambiente cultural fragmentado não há só uma realidade, mas tantas quanto há fragmentos. De fato, ao contrário do que se poderia crer, a realidade não precede a cultura. Com efeito, só pode haver realidade no interior dessa última. Então, uma realidade é o resultado de um processo que unificou uma cultura. Nesse sentido, os intelectuais latino americanos têm expressado perfeita identificação com um ambiente cultural fragmentado: sendo várias as realidades, serão sempre artificiais as produções intelectuais. Isso porque um produto intelectual particular, conectado a uma dimensão cultural fragmentada, não pode pretender universalidade plena.

Não há como forjar uma integração intelectual efetiva com elementos culturais fragmentados, porque jamais se obterá entre eles uma correspondência plena. Nesse caso, a atividade intelectual sempre tematizará assuntos não substantivos, porque nenhum deles constitui efetivamente parte de um núcleo integrado – aqui inexistente. Daí que a atividade intelectual só possa dedicar-se a algo que é um elemento particular, uma parte de uma totalidade culturalmente indefinida. Em um ambiente culturalmente fragmentado, a totalidade é algo que sempre fica além do conteúdo de todo produto intelectual particular. Isso significa que a totalidade (aqui apenas imaginada) sempre escorre entre os dedos do trabalho intelectual. Esse último pode visá-la, sem contudo nunca poder atingi-la. Daí a impossibilidade de se escapar da artificialidade.

O barroquismo da atividade intelectual latino americana (GUIRIN, 2001), sua dedicação constante aos ornamentos, é incontornável em função dela ser exercida em um ambiente cultural fragmentado. Essa mesma impossibilidade de concentração sobre um núcleo fixo provocará também certa intranquilidade da atividade intelectual, como se verá adiante.

Observe que essa situação revela um dado importante acerca da natureza de todo trabalho intelectual: trata-se de uma atividade que lida com os constrangimentos naturais de uma situação cultural dada. O trabalho intelectual se desenrola em um ambiente e não pode ir além dos limites aí estabelecidos. Assim, mesmo que o intelectual latino americano pretenda constituir uma unidade integradora a partir dos fragmentos que lhe são fornecidos, ele não está apto a realizar esse propósito. Ele não é um demiurgo que pode colocar-se acima e moldar a cultura como melhor lhe pareça. É verdade que ele pode propor-se isso, como um sujeito relativamente livre que é, mas não pode pretender que a mera proposição dessa integração corresponda ao processo cultural efetivo de produzi-la. Nesse caso específico, a lógica do processo cultural de integração não se encontra sob seu poder e ele sempre desempenhará suas funções dentro das limitações culturais dadas. Embora isso pareça trivial, me parece oportuno destacar a limitação humana presente também na atividade intelectual.

Outra evidência significativa dessa peculiar situação decorativa ligada ao trabalho intelectual é a necessidade, quase que compulsiva, de que os intelectuais latino americanos se dediquem à atividade política. Mansilla (2002: 28) denominou-a como “la fascinación que el ejercicio del poder ha irradiado casi siempre sobre innumerables intelectuales, independientemente de su posición ideológica”. Isso parece indicar que os próprios intelectuais compreendem que sua atividade intelectual não pode chegar a um termo satisfatório se não se converter em ação política. Isto é, eles compreendem que falta substancialidade à atividade intelectual e que não é possível a um indivíduo obter plena realização existencial através de seu exercício exclusivo.

Aliás, essa compulsão por um complemento, essa movimentação inquietante em direção a algo mais, esse deslocamento existencial em direção a algo novo é uma característica de um mundo não integrado e sem horizontes consolidados de possibilidades existenciais. A contenção em um único ramo de atividades pessoalmente significativo durante toda a vida exige uma centralização em torno de objetivos bem definidos e a adoção de uma direção constante. Como não é esse o caso na América Latina, é perfeitamente compreensível os saltos qualitativos de um lado para outro – ao contrário da tendência a se adotar uma determinação unidirecional da vontade, predominante no mundo europeu. Dado que um fragmento é sempre existencialmente insuficiente, torna-se razoável saltar de um para outro e depois mais outro etc. Em função disso, não é de se estranhar também a grande capacidade de adaptação do intelectual latino americano às mais diferentes posições políticas. Não se trata, também aqui, de um defeito moral, mas de mostrar-se ajustado a um mundo fragmentado.

De fato, observe que a constatação de que a atividade intelectual é decorativa e de que é necessário complementá-la através da participação em atividades políticas compõem um mesmo padrão de reação à fragmentação cultural. Ele expressa a crença na insuficiência da dimensão da atividade intelectual. Quando essa atividade se mostra vazia de substância, ela revela sua incapacidade em conectar-se de maneira produtiva com o restante da cultura. De fato, se se chegou à conclusão de que a atividade intelectual deveria ser substituída, em algum momento, por aquelas outras atividades políticas, isso parece significar que o exercício intelectual é por si mesmo insuficiente.

Essa atividade se mostra decorativa e inessencial porque não existe contra o quê ampará-la, não há de onde retirar substância e significatividade para o exercício intelectual em função da fragmentação do mundo cultural. Mas isso não é uma decorrência de uma mera atitude ou disposição psicológica da parte do intelectual latino americano. A constatação da inessencialidade do exercício intelectual - e as consequentes reações contra ela - são produzidas por aquela configuração cultural sem integração.


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A insuficiência da atividade intelectual retira seu sentido de um estado permanente de desconexão com o restante da cultura e do sentimento de que ela não é, afinal, significativa no contexto latino americano. Então, o problema não é apenas de falta de reconhecimento social da atividade intelectual, mas também de falta de autorreconhecimento desse valor. Pode parecer que essa falta de autorreconhecimento é o resultado da internalização da falta de reconhecimento social. Porém, me parece mais acertado afirmar que se tratam aqui de duas manifestações distintas de um mesmo princípio. Esse princípio expressa a desconexão da atividade intelectual com o restante da cultura latino americana. E, como vimos, essa desconexão se deve à falta de integração resultante de uma colonização mal sucedida.

 

Terapêutica contra a amargura

Essa situação de falta de referências culturais consolidadas tem gerado uma grande variedade de reações. A maioria delas conduz o intelectual latino americano ao sofrimento pessoal. Há um ganho colateral nessa discussão aqui proposta que é de natureza terapêutica. Podemos nos livrar da pressão de determinadas necessidades ligadas ao trabalho intelectual assim que percebemos que elas não podem se realizar.

Uma das reações mais imediatas diante dessa falta de orientação no exercício intelectual é a tentativa de transpor para a América Latina o mesmo padrão existente no mundo europeu ou europeizado. Essa tentativa supõe que a atividade intelectual pode ser a mesmo aqui e lá. E isso tem sido a fonte principal de frustração e amargura para gerações de intelectuais latino americanos. A nossa situação cultural gera insatisfação pessoal, sensação de inessencialidade e falta de reconhecimento social para o intelectual que transferiu para cá as expectativas relativas ao padrão europeu.

Como não há como reconhecer a relevância cultural de uma atividade intelectual em um contexto fragmentado, o intelectual latino americano reclama da estupidez das massas, incapazes de compreender a importância do seu trabalho. De fato, muito cedo ele se vê as voltas com a necessidade de angariar algum tipo de reconhecimento social que lhe garanta o oxigênio fundamental para realizar seu trabalho. Porém, sem a integração cultural, a única forma de se obter apoio e reconhecimento é através de alguma modalidade de mecenato. Através desse mecenato, o intelectual coloca-se a serviço das únicas forças sociais efetivas que pode se estabelecer influências nesse cenário, dada a ausência de uma plataforma cultural sólida e válida por si mesma: o dinheiro e o poder.

A situação de busca e submissão ao mecenato intelectual revela uma das consequências da fragmentação da cultura latino americana. Não existindo uma base comum de valores que permita a promoção e o reconhecimento do mérito intelectual através de uma lógica autônoma, o intelectual busca apoiar-se em outras instâncias sociais que possam lhe fornecer benefícios sociais. Assim, o poder, o status e o dinheiro substituem aquilo que o ambiente cultural geral e o espaço mais restrito da atividade intelectual não podem fornecer por si mesmos.

A situação de relativa independência criada por alguns sistemas universitários da América Latina certamente alivia essa necessidade de mecenato, embora não seja capaz de atenuar a ausência de uma plataforma cultural de reconhecimento do mérito intelectual. Essa ausência permanece exercendo pressão a despeito de uma situação financeira estável promovida pelo emprego universitário. Apenas a fragmentação cultural pode justificar que mesmo no meio universitário latino americano, portanto em um ambiente social relativamente artificial, não seja possível promover o mérito de maneira relativamente objetiva.

A essa altura, já estamos em condições de compreender porque um intelectual latino americano raramente é reconhecido e respeitado em seu próprio país ou ambiente. O reconhecimento cultural autêntico supõe a possibilidade de se realizar uma avaliação relativamente objetiva da relevância do trabalho intelectual individual. E essa relevância só pode ser obtida contra o pano de fundo de um conjunto de valores culturalmente integrados – para os quais o trabalho em questão significa uma contribuição efetivamente relevante.

Em um ambiente de fragmentação não há uma plataforma sólida contra a qual se possa avaliar com segurança a contribuição individual de um intelectual. Mesmo quando isso ocorre empiricamente, mesmo quando um intelectual latino americano adquire certo reconhecimento em seu país ou região, nem aí ele pode estar seguro de não ser objeto de esquecimento ou de futuras reavaliações negativas. Afinal, a regra em ambientes fragmentados é de mobilidade, de reviravoltas constantes, de alterações de rumo que evitam solidificações. Portanto, o mérito pessoal de um intelectual latino americano é algo de difícil aquisição e, mesmo quando isso ocorre, nada aí pode ser dado como certo. Nesse ambiente, o que se impõe sempre é a suspeita de que o mérito obtido seja decorrente de algum acordo social interessado, de uma tentativa de se obter universalidade através dos meios ilegítimos dentro da incontornável fragmentação.

José Carlos Mariátegui
Imagem 4. José Carlos Mariátegui
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Não é raro, portanto, que ocorra a saída de intelectuais latino americanos para os países europeus ou europeizados. Só nesses ambientes culturalmente integrados é que existem condições para se obter autêntico reconhecimento profissional e social. Aos que ficam, resta a tempestade em que habitam. Aliás, em função das reviravoltas de significado e das movimentações constantes há um verdadeiro ceticismo latino americano acerca de reputações – intelectuais ou não. Adquirimos o hábito de ajustar nossos juízos às oscilações das avaliações provocadas por revelações sempre desabonadoras.  Elas conduzem à adoção desse ceticismo defensivo com respeito a quaisquer reputações. Na verdade, essa modalidade de ceticismo com relação a um autêntico valor é a mais ajustada ao ambiente cultural fragmentado da América Latina.

Com esses elementos apresentados acima, parece possível contornar parcialmente a frustração do intelectual latino americano com relação à falta de reconhecimento profissional e social. O reconhecimento autêntico, aquele que se produz a partir de um confronto com uma base cultural sólida, não pode ocorrer no ambiente em que vivemos. O problema da falta de reconhecimento não é de incompetência pessoal ou de viés mal intencionado dos responsáveis pelas avaliações de mérito (quando existem).

A questão determinante é que não pode haver reconhecimento do trabalho intelectual em um ambiente cultural que se mostra fragmentado e, portanto, destituído de critérios duradouros. Nesse caso, mesmo que ele se apresente, jamais pode ser confiável. Sugiro, assim, aos meus colegas, intelectuais latino americanos, que abram mão da expectativa de obtenção de reconhecimento social e profissional em função de suas atividades. Essa é certamente a ação mais apropriada e com melhores possibilidades terapêuticas em função do ambiente cultural em que estamos inseridos. Nesse contexto, manter as demandas por reconhecimento na ordem do dia significa condenar-se à frustração e à amargura derivadas da sensação de haver se tornado uma vítima da injustiça dos seus concidadãos.

 

O sentido do trabalho intelectual na América Latina

Uma das questões que me parecem mais salientes, decorrentes do reconhecimento da situação de falta de integração cultural da América Latina, é a do próprio sentido da atividade intelectual. Afinal, sem um conjunto de valores integradores, sem um centro que sirva de referência, não parece possível obter uma finalidade para o trabalho intelectual. Chamo a atenção para a ausência nesse texto de uma definição explícita da atividade intelectual. Isso se deve ao fato de que o sentido dessa atividade depende do contexto cultural em que ela se exerce. Como lidamos aqui com dois ambientes culturais distintos, isso torna impossível obter uma definição unívoca para o trabalho intelectual.

Entretanto, para tornar a dificuldade acima mais clara, vamos admitir que o trabalho intelectual seja constituído, ao menos parcialmente, por alguma modalidade de avaliação do mundo que nos cerca. Sem promover avaliações não parece possível ocorrer o trabalho intelectual, embora talvez ele não se resuma apenas a isso. Porém, essa característica mínima é o suficiente para o que interessa diretamente a esse texto.

Dessa definição mínima decorre, então, o problema de como proceder a avaliações sem uma moldura orientadora que forneça os critérios – ou, ao menos, os critérios para se encontrar critérios ou um plano de referências qualquer, mesmo que tênue. Como, no ambiente latino americano, podemos fundamentar os procedimentos de avaliação? Não certamente pela replicação do padrão europeu. Afinal, esse ou qualquer outro valor particular não conta na América Latina com aquela disposição cultural integradora europeia que permitiria que um deles se tornasse a referência para toda a atividade intelectual possível.

Mesmo supondo que avalizássemos explicitamente um privilégio a algum critério avaliativo – talvez por meio de um gesto de força - não haveria como ele obter primazia como fonte orientadora da atividade intelectual em função da falta de integração cultural do ambiente latino americano. E esse é o verdadeiro impedimento para que o exercício da atividade intelectual na América Latina ocorra nos mesmos termos que no mundo europeu ou europeizado: sua falta de um centro cultural orientador e legitimador. Independentemente do critério que se pretenda utilizar, simplesmente não há como se obter uma definição unívoca do trabalho intelectual na América Latina.

Mesmo quando tentamos fazer a transposição dos procedimentos intelectuais europeus para a América Latina, eles não revelam aqui o mesmo desempenho que lá. Essa dificuldade não deriva de alguma indisposição de nossa parte para realizar adaptações, muito ao contrário, e sim do fato de que mesmo as melhores imitações de modelos europeus não poderão produzir efeitos semelhantes aqui. A evidência mais significativa do caráter infrutífero dessas transposições é que, depois de 500 anos de tentativas, tais procedimentos ainda não adquiriram validade plena e, portanto, não produziram uma cultura latino americana integrada.

Como não há um fundo comum que oriente o sentido das contribuições individuais, os intelectuais latino americanos constantemente cedem à tentação de começar tudo do zero, a reiniciar a atividade de avaliação a partir de algum ponto não contaminado por outras intervenções. Eles agem como “nuevos Descartes”, partindo sempre de “una cierta originalidad infundada, superficial, aparente” (DUSSEL, 1973: 19). Até porque não poderiam partir de algo diferente, dada a falta de um padrão de orientação válido.

Seu trabalho, portanto, nunca contribui efetivamente para a consolidação de uma linha sucessória de avaliações graduais que perfazem uma totalidade ou uma série histórica de contribuições. O que temos, de fato, são várias pequenas adaptações de matriz europeia transpostas para a América Latina em diferentes períodos e com diferentes intensidades e resultados. Essas adaptações são facilitadas em função de já contarem com certo reconhecimento profissional europeu e não necessitarem buscar legitimação no nosso ambiente. De fato, as imitações de padrões europeus sempre são consideradas superioras às produções locais porque já vêm de lá com uma chancela cultural impossível de ser obtida aqui. Elas já nascem com uma aura de superioridade que será posteriormente desacreditada em solo latino americano, porque não atingirão a hegemonia sobre a fragmentação. Mas de início elas sempre parecem superioras. São os resultados em solo latino americano que demonstram sua disfuncionalidade (em termos europeus).

A essa altura, sabemos que não faz sentido operar tais adaptações para a América Latina, pois elas não podem gozar aqui da validade e do significado que possuem no mundo europeu. Se trata “pura y simplemente, de la incompatibilidad de dos culturas dotadas de sistemas de valores básicamente diferentes.” (TANNENBAUM, 1972: 108). Embora o sistema colonial pareça jamais esgotar suas promessas sempre renovadas de obtenção de uma integração da cultura colonizada sob valores importados, a experiência repetitiva do esquema das adaptações realmente decepciona após cinco séculos. Assim, tudo parece conspirar no sentido de procurarmos criar nossos próprios critérios integradores que nos permitiriam uma orientação própria da atividade intelectual. Trata-se, aqui, da possibilidade de uma atividade intelectual autenticamente latino americana.

Entretanto, nesse caso, a dificuldade é que a própria noção de orientação da atividade intelectual é incompatível com a situação de fragmentação de nossa cultura. Colocada nesses termos, ela não parece poder ser resolvida pela opção em substituir os critérios europeus por nossos próprios critérios, de tal forma que possamos também promover avaliações orientadas de acordo com nossa própria especificidade.

A tese de que caberia ao intelectual latino americano produzir um processo de integração cultural próprio é muito atrativa. Ela pode ser quase automaticamente derivada das decepções repetidas com relação a adaptações dos modelos europeus. É razoável pensar também que ela tenha se acentuado após os processos de independência política dos países da América Latina, quando passou a ser importante afirmar nossa especificidade contra as metrópoles.

Alvarado (2013: 97) afirma que “Los sujetos de ideas – los críticos, se entiende – se encuentran obligados a elaborar un discurso que apele a la integración como un factor necesario”. Essa integração, que parece necessária, nos garantiria um lugar no mundo segundo nossa própria maneira de ser, a ocupação de uma posição em pé de igualdade com a Europa. Isso de tal forma que estaríamos contribuindo efetivamente com a civilização ocidental, porém de acordo com nosso próprio modo de ser. Por meio dessa estratégia, nos lançaríamos além da situação de dependência e de imitação do mundo europeu, em direção à nossa originalidade e de encontro ao que efetivamente somos (ZEA, 1974).

Embora essa atitude pareça muito razoável, ela desconsidera algo importante. Ela esquece que o que temos sido, que nosso modo de ser não é qualquer modo de ser. Trata-se de uma cultura que tem se mostrado fragmentada. Então, promover uma integração sob outro conjunto de valores que não sejam aqueles da cultura europeia ainda é caminhar na mesma trilha percorrida pelo mundo europeu, embora sob uma modalidade distinta.

Essa trilha se revela claramente quando observamos que é o mundo europeu que se estrutura com base na necessidade de integração que, então, possibilita a atividade intelectual. Dessa maneira, a tentativa de produzir nossa própria integração cultural, em termos latino americanos, parece ainda uma forma de imitação do mundo europeu. Afinal ainda se trata de promover uma integração, no mesmo sentido em que ela é solicitada pela ação colonizadora europeia. A diferença é que, agora, nós mesmos nos propomos a realizar essa colonização por meio de um trabalho intelectual integrador.

Pode parecer muito natural que a direção mais promissora a adotarmos, como padrão da atividade intelectual para a América Latina, seja realmente a integração cultural segundo critérios próprios. O que explica a naturalidade que envolve essa direção é algo que tem geralmente passado despercebido na discussão sobre o papel dos intelectuais na América Latina: o fato de que, por definição, intelectual tem significado europeu ou europeizado. Assim, a disposição em adotar a integração cultural segundo nossos próprios meios é uma tentativa gestada de dentro das disposições básicas da cultura europeia. De fato, só podemos nos propor essa estratégia de dentro do ambiente europeu em que fomos educados e de onde aprendemos que ser um intelectual é, no mínimo, promover avaliações do mundo que nos cerca. Avaliações que só podem se realizar, em último caso, através de algum sistema integrado de valores.

É a partir desse compromisso com uma definição europeia prévia do que é o trabalho intelectual no ambiente da cultura que temos nos movimentado, hora para imitar, hora para buscar compensações nos termos do mecenato, hora para ensaiarmos uma integração cultural propriamente latino americana, hora para sermos revolucionários de esquerda, hora para sermos funcionários e assessores etc. Em todas essas opções nos movemos dentro do esquema europeu em que a integração cultural é um requisito fundamental.

Efetivamente, a proposta de promover uma linha própria de integração cultural na América Latina ainda é uma proposta europeia, feita de dentro do espírito europeu e, por isso mesmo, por intelectuais que são europeus – queiram ou não. Estritamente falando, isso coloca sob suspeita nossa capacidade de avaliar a situação da cultura latino americana de um ponto de vista latino americano, na medida em que somos intelectuais europeus. Na verdade, somos europeus porque somos intelectuais. Somos europeus, porque somos treinados no exercício de promover avaliações e, para isso, supomos uma cultura integrada que nos fornece o respaldo necessário para essa atividade. A atividade intelectual só faz sentido contra o pano de fundo de uma cultura integrada, logo europeia ou europeizada.

Então, a princípio, só podemos nos habilitar a enfrentar o problema da atividade intelectual latino americana recusando o ponto de vista europeu - que só faz sentido no interior de uma cultura integrada. Não se trata aqui, evidentemente, de afirmar alguma aversão pela cultura europeia ou de um desejo por originalidade a todo preço, mas do reconhecimento de que não se pode aplicar a uma cultura fragmentada os procedimentos intelectuais desenvolvidos para agir no interior de uma cultura integrada. Essas duas situações são incomensuráveis, de tal maneira que não faz sentido continuarmos a representar a cultura latino americana como um ramo da cultura ocidental (SILVEIRA, 2015).

Note que a pretensão de superar as limitações de ambas as situações culturais e promover alguma modalidade de síntese superiora é uma proposição que retira seu sentido da possibilidade de integração. Então, ela não se configura como uma proposta de ação superiora que suprimiria a mútua unilateralidade das diferenças entre a cultura europeia e a latino americana. Ela é claramente uma posição de matriz europeia tentando ser transplantada para nosso ambiente. Logo, ela é uma posição unilateral.

Ezequiel Martínez Estrada
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Há um detalhe secundário, porém importante e digno de atenção, com relação à proposição de nos tornarmos originais por meio da promoção de nossa própria integração cultural. Ela supõe que o trabalho intelectual consiste em algo semelhante ao desígnio de Moisés: conduzir o povo eleito através do deserto até a terra prometida. Com efeito, essa proposta afirma que caberia aos intelectuais produzir essa nova e autêntica síntese integradora que viria a substituir tanto a fragmentação em que nos encontramos quanto o mundo europeu. Essa aposta de originalidade de nossa capacidade de integração cultural supõe que cabe aos intelectuais realizar esse processo. Retomo aqui o tema do demiurgo nessa nova situação.

Para não dizer muito sobre isso, me parece uma temeridade que intelectuais se proponham a desempenhar o papel de guias culturais em função dos eventos políticos ocorridos no Século XX. Refiro-me ao extermínio de milhões de pessoas gerados por certo uso duvidoso da racionalidade humana. Uso que ainda hoje faz pender sobre nossas cabeças a possibilidade atômica de simplesmente inviabilizar a vida nesse planeta ou de torná-la mais e mais difícil em função dos danos ambientais crescentes promovidos pela forma predominante de racionalização da vida.

Assim, me parece fora de propósito cogitar, em pleno Século XXI, na hipótese de que intelectuais se proponham a conduzir seus respectivos povos em direção a um futuro promissor ou em direção a um passado glorioso – se preferirem. Em função da experiência acumulada, isso soa muitíssimo pior do que aquela velha proposta platônica de colocar o filósofo no trono da cidade (PLATÃO, 1994).

Descartada essa hipótese temerária, podemos refazer nossa questão já supondo que não cabe ao intelectual latino americano agir como um Moisés de seu povo. Preocupa-nos saber como podemos nos orientar no pensamento em um ambiente fragmentado. Isso, descartada qualquer possibilidade de resvalarmos para alguma forma de aplicação de critérios europeus integrados que não possuem pertinência em relação ao mundo gerado por uma colonização mal sucedida. Em outros termos, isso significa a possibilidade de traçarmos referências de ação para a atividade intelectual no ambiente latino americano, isto é, no meio da fragmentação – e dentro de um espírito propriamente latino americano em que essa fragmentação é tomada como um dado.

Não podemos deixar de destacar que aquela necessidade de orientação da atividade intelectual é, ainda que de maneira implícita e subreptícia, uma necessidade de integração típica ao mundo europeu. Aqui, mais do que em qualquer outra parte, se apresenta a intromissão sedutora do modo de pensar europeu. Afinal, se a cultura europeia é uma cultura integrada isso se deve a ter ela experimentado o desconforto histórico de uma situação de fragmentação. Então, o nosso problema pode se revelar mais propriamente sob a seguinte formulação: o trabalho intelectual é necessário na América Latina? Ou ainda: é necessário integrar uma cultura fragmentada?

Ao buscar uma orientação para o trabalho intelectual ainda estaríamos nos movendo no ambiente latino americano do mesmo modo que um europeu ou um europeizado se moveria nele. Ou seja, estaríamos nos propondo o mesmo tipo de problema que um europeu se proporia: de que maneira realizar a integração. Não é ocasional que a fragmentação cultural gere nos europeus a sensação de um tumulto ou de uma bagunça indesejável. É dessa sensação de desconforto que surge a necessidade da integração e do ordenamento cultural - que permite avaliações relativamente objetivas e torna possível o trabalho intelectual.

Se caminharmos na direção daquele espírito latino americano, removendo de nós mesmos todo impulso por integração, oriundo das disposições que herdamos de nossa formação intelectual europeia o que efetivamente nos resta? Chamo a atenção para o significado dessa remoção: ela envolve caminhar para fora da cultura ocidental e para dentro da fragmentação latino americana. Isso significa caminhar para dentro da fragmentação cultural sem o impulso por integração. O que nos resta é a fragmentação em seus próprios termos ou a cultura latino americana experimentada internamente e de seu próprio ponto de vista, sem a interferência de um projeto europeu. Essa fragmentação, assim experimentada, não é desconfortável.

Nesse ambiente, a necessidade para os intelectuais treinados nas disposições europeizantes, seria a de se adaptarem à fragmentação cultural sem cair na prática da integração. Se evitaria, portanto, todo tipo de tensão ou conflito produzido por aquela disposição integradora dentro de um mundo fragmentado. De fato, ao aceitar a fragmentação cultural em seus próprios termos, sem projetar sobre ela impulsos integradores, o propósito do trabalho intelectual se desvaneceria no ar. Isto é, não haveria necessidade de buscar uma orientação, já que se estaria admitindo que ela não é requisitada nesse ambiente. A experiência da cultura latino americana em seus próprios termos implica na aceitação da fragmentação, sem que sobre ela se projetem intenções integradoras. Assim, a questão relativa à função do trabalho intelectual ajustado à América Latina não é respondida, ela simplesmente se dissipa e perde o significado.

 

Conclusão

Nos termos a que chegamos, é forçoso admitir que o intelectual latino americano propriamente dito simplesmente não existe ou existe muito escassamente. O que se chama comumente de intelectual latino americano é somente um cidadão de um dos países da América Latina exercendo uma atividade de matriz europeia, dentro daquele espírito integrador que lhe é típico.

Com isso, acredito ter tornado explícito que não há como ser, simultaneamente, intelectual e latino americano. Afinal, ser intelectual é agir com base em princípios integradores. Por outro lado, ser latino americano, estritamente falando, consiste em adotar o espírito fragmentado da cultura latino americana sem estar obcecado pelos processos de integração. Ou seja, o latino americano (que experimenta a América Latina de uma perspectiva latino americana) é um ser humano perfeitamente ajustado ao ambiente cultural fragmentado em que se encontra. E esse ajuste entre o ser humano latino americano e seu ambiente cultural exige a aceitação plena daquilo que temos sido, sem a intervenção de recusas ou negações, sem a anteposição de projetos de melhoria colonizadores.

Não defendo, obviamente, que essa aceitação do que temos sido seja uma postura permanente. Porém, a possibilidade de elaborarmos projetos compatíveis com a fragmentação cultural exige, como um passo intermediário necessário, assumirmos o que temos sido.

O que parece estar prejudicando a adoção desse espírito latino americano em seus próprios termos é o fato de que, partindo sempre de uma perspectiva europeia, projetarmos sobre nosso ambiente projetos e soluções que são incompatíveis com ele. E eles se mostram incompatíveis justamente porque exigem a morte do que temos sido como condição para a promoção da integração cultural. Talvez decorra dessa implicação extrema, que propõe a eliminação de nossa maneira de ser, a falência das tentativas de modernização da América Latina. Isto é, o fracasso das tentativas de europeizá-la. Se não se trata somente de uma óbvia incompatibilidade que conduz à morte, essa recusa torna-se previsível em função da aprendizagem que 500 anos de colonização nos propiciaram. Anos de colonização que contaram e contam ainda com a colaboração daquele que foi indevidamente chamado de intelectual latino americano.

 

Notas:

[1] Ronie Alexsandro Teles da Silveira é professor de filosofia na Universidade Federal do Sul da Bahia, Brasil. Tem trabalhado com a questão da relação entre filosofia e cultura latino americana. Organizou várias coletâneas sobre o assunto: “A religiosidade Brasileira e a Filosofia”, “O Carnaval e a Filosofia”, “O Futebol e a Filosofia”, “O Samba e a Filosofia” etc. é autor de “Apresentação do Brasil” e vários artigos sobre esse assunto disponíveis em www.http://roniefilosofia.wix.com/ronie. Email: Esta dirección de correo electrónico está siendo protegida contra los robots de spam. Necesita tener JavaScript habilitado para poder verlo.

 

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Cómo citar este artículo:

TELES DA SILVEIRA, Ronie Alexsandro, (2017) “O Intelectual Latino Americano”, Pacarina del Sur [En línea], año 8, núm. 31, abril-junio, 2017. ISSN: 2007-2309.

Consultado el Viernes, 20 de Octubre de 2017.

Disponible en Internet: www.pacarinadelsur.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1459&catid=14

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